Um testamento para cada país ou um só? Como bens no Brasil e nos EUA mudam a resposta
Testamento ou trust para bens no exterior: veja quando um documento basta, quando cada país pede o seu e como coordenar Brasil e EUA sem contradições.
Por Cristina Teixeira, CPA, TEP, CRC
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Um testamento só pode cobrir bens em vários países, mas cada país decide se o reconhece e como aplica as próprias regras de herança. Para quem tem bens no Brasil e nos EUA, documentos separados e coordenados costumam facilitar o processo, desde que não se contradigam e respeitem a legítima brasileira.
Este texto compara as duas opções e mostra o que reunir antes de decidir.
Atualizado em outubro de 2026.
Por que essa escolha importa
A escolha importa porque, na prática, a família enfrenta dois sistemas ao mesmo tempo. Quem tem apartamento no Brasil e conta ou imóvel nos EUA costuma ouvir "faça um testamento em cada país" de um profissional e "um só resolve" de outro. As duas respostas podem estar certas, dependendo dos fatos.
O risco está nos extremos. Um documento só, sem pensar no país do bem, pode exigir reconhecimento local, tradução e advogado em um momento difícil. Dois documentos feitos em momentos diferentes, por profissionais que não conversam, podem se contradizer: cada um pode revogar o outro ou distribuir o mesmo bem de forma diferente.
O ponto de partida do tema está no artigo sobre se o testamento brasileiro vale para bens no exterior. Aqui o foco é a decisão seguinte: um documento ou vários.
Um único testamento pode cobrir bens em vários países?
Pode cobrir no papel, mas isso não garante que cada país o aplique como está escrito. Um testamento descreve a vontade da pessoa sobre todos os bens, onde quer que estejam. O que muda de país para país é o reconhecimento: qual autoridade o valida, com quais formalidades e sob qual lei de herança.
No Brasil, essa liberdade tem um limite. O Código Civil (consulta em outubro de 2026) permite dispor por testamento da totalidade dos bens, mas determina que a legítima dos herdeiros necessários não pode ser incluída no testamento (art. 1.857). Os herdeiros necessários são os descendentes, os ascendentes e o cônjuge (art. 1.845), e a legítima corresponde à metade dos bens da herança (art. 1.846). Legítima, em termos simples, é a parte da herança que a lei reserva a esses herdeiros.
Nos Estados Unidos, o cenário costuma ser outro. Em geral, as regras de herança são estaduais e não há uma reserva obrigatória igual à brasileira, embora existam proteções ao cônjuge que variam de estado para estado. Por isso, um documento redigido apenas pela ótica brasileira pode produzir efeito diferente do esperado quando chega a um tribunal americano.
Por que um documento por país costuma ser considerado
Documentos separados costumam ser considerados porque cada um pode ser redigido na forma que o país do bem reconhece, o que tende a reduzir tempo e custo do processo local. Um testamento americano, por exemplo, pode ser feito para tratar dos bens nos EUA, enquanto o brasileiro trata dos bens no Brasil.
O processo local nos EUA costuma se chamar probate. Em termos simples, é o procedimento judicial que confirma a validade do testamento, identifica os bens, paga dívidas e autoriza a transferência aos herdeiros. Regras, prazos e custos variam conforme o estado.
Há também o lado fiscal. Segundo o IRS (consulta em outubro de 2026), o executor do espólio de um não residente que não é cidadão americano deve apresentar o Form 706-NA quando o valor de mercado, na data do falecimento, dos bens situados nos EUA ultrapassa US$ 60.000. A mesma página inclui imóveis nos EUA e ações de empresas constituídas sob a lei americana entre os bens tratados como situados no país. Ter um testamento no Brasil, ou nos dois países, não elimina essa obrigação.
Atenção: o benefício dos documentos separados só existe se eles forem coordenados. Um segundo testamento que revoga o primeiro sem que isso seja uma escolha consciente é o erro mais comum.
Um testamento ou um por país: o que muda em cada caminho
Um único documento é mais simples de manter, e dois documentos tendem a ser mais fáceis de executar localmente. A tabela compara os pontos que costumam pesar na decisão.
| Critério | Um único testamento | Um testamento por país |
|---|---|---|
| Manutenção | Um texto para atualizar | Dois textos a atualizar em conjunto |
| Reconhecimento local | Pode exigir validação, tradução e formalidades no país do bem | Cada documento segue a forma do país onde será usado |
| Risco de contradição | Baixo, pois há um só texto | Maior, se redigidos por profissionais que não se comunicam |
| Legítima brasileira | Precisa ser respeitada para quem tem domicílio no Brasil | Precisa ser respeitada no documento brasileiro; o americano deve ser desenhado para não conflitar |
| Equipe necessária | Advogado de um país, com consulta ao outro | Advogados nos dois países, com coordenação |
| Quando costuma ser considerado | Bens concentrados em um país, com pouco patrimônio fora | Bens relevantes nos dois países, ou herdeiros em países diferentes |
A tabela descreve tendências, não regras. A resposta para o seu caso depende de onde o bem está, de como está titulado e de onde moram os herdeiros.
"O problema raramente é ter dois testamentos. É ter dois testamentos que nunca foram lidos lado a lado", observa Cristina Teixeira, CPA e TEP, cofundadora da Astride.
E o trust? Quando ele entra na comparação
O trust entra na comparação porque pode tratar de alguns bens fora do testamento. Em termos simples, um trust é um acordo em que uma pessoa (o instituidor) transfere bens a um administrador (o trustee), que os gerencia em benefício de terceiros, conforme as regras do documento.
Dependendo do desenho, bens colocados em trust podem seguir o caminho previsto no próprio trust, e não o do testamento. Isso não significa que ele evite inventário, imposto ou conflito com a legítima como regra: cada ponto depende do tipo de trust, do país e dos fatos. O trust também tem exigências próprias de reporte. O IRS trata, por exemplo, do Form 3520 para certas operações envolvendo trusts estrangeiros.
A comparação entre os três instrumentos, com testamento, trust e holding lado a lado, está em trust, testamento ou holding: quais as diferenças.
Como coordenar documentos em dois países
Coordenar significa que os documentos sejam escritos e revisados em conjunto, com a mesma lista de bens e a mesma intenção. Um roteiro simples costuma ajudar:
- Liste os bens por país, com a forma de titularidade de cada um (pessoa física, copropriedade, empresa, trust).
- Anote os documentos já existentes, com data e local dos originais.
- Confira quais contas e apólices têm beneficiário indicado e se a indicação está atualizada.
- Defina se a vontade é a mesma para os dois países ou se há diferenças intencionais.
- Peça que os advogados dos dois países leiam os textos um do outro antes de assinar.
- Inclua, se for o caso, cláusulas que deixem claro que o novo documento não revoga o do outro país.
- Reveja tudo após mudanças relevantes: compra ou venda de bem, mudança de residência, nascimento, divórcio.
Exemplo ilustrativo e hipotético: uma família brasileira tem um apartamento em São Paulo e um imóvel na Flórida. O testamento feito no Brasil distribui os dois bens em partes iguais entre os filhos. Anos depois, um segundo testamento, feito nos EUA sem consulta ao primeiro, deixa o imóvel da Flórida para um só filho. Cada documento pode ser válido no seu país, mas o conjunto gera dúvida sobre qual vale e abre espaço para disputa.
O que muda de caso para caso
A resposta muda conforme o domicílio do titular, o país e o estado do bem, a titularidade e o perfil dos herdeiros.
Quem mora no Brasil e tem bens nos EUA enfrenta uma combinação diferente da de quem mora nos EUA e tem bens no Brasil. Quem tem cidadania ou residência americana pode estar sujeito a outras regras de tributação. Herdeiros em países diferentes, bens em empresa ou em trust e contas com beneficiário indicado alteram o caminho de cada bem.
Este ponto depende dos fatos: por isso o artigo mostra perguntas a fazer, e não o instrumento que você deve usar. A conclusão sobre o caso concreto exige orientação jurídica no Brasil e no país do bem.
Como a Astride atua
A Astride revisa se os instrumentos sucessórios se complementam, olhando junto a titularidade de cada bem, a tributação e a situação dos herdeiros. Em muitos casos, a forma como o bem está registrado pesa tanto quanto o testamento.
A abordagem é integrada e envolve advogados das duas jurisdições quando necessário. Não há promessa de resultado: cada instrumento tem requisitos, custos e limites, e a escolha depende dos fatos.
Perguntas frequentes
Preciso de um testamento nos EUA se já tenho um no Brasil?
Depende do que você possui nos EUA e de como está titulado. Quem tem imóvel ou investimentos relevantes lá costuma avaliar um documento local, que pode facilitar o processo. O cuidado principal é a coordenação: o segundo testamento não deve revogar o primeiro sem que isso seja uma escolha consciente.
Um testamento brasileiro vale nos Estados Unidos?
Pode ser reconhecido, mas não costuma valer de forma automática. O estado americano pode exigir formalidades, tradução e representação por advogado. Se o documento atual basta ou precisa de complemento depende do estado, do tipo de bem e da titularidade.
Trust substitui o testamento?
Em geral, não substitui por completo. O trust pode tratar de certos bens, enquanto o testamento costuma cobrir o que ficou fora dele. Cada um tem requisitos e limites próprios, e a combinação adequada depende do patrimônio, dos herdeiros e dos países envolvidos.
O que acontece se os dois testamentos se contradizerem?
Pode haver disputa sobre qual documento prevalece e em qual país. Em alguns casos, um documento mais recente pode revogar o anterior, total ou parcialmente. Por isso, a revisão conjunta por profissionais dos dois países é o ponto central da coordenação.
Posso deixar os bens do exterior para uma só pessoa?
Se você tem domicílio no Brasil e herdeiros necessários, a legítima, que o Código Civil fixa em metade da herança, limita essa liberdade. O país do bem pode aplicar regras diferentes, e as duas leis podem entrar em tensão. Esse tipo de decisão pede análise com orientação nos dois países.
Ter testamento evita o inventário ou o probate?
Não costuma evitar. O testamento expressa a vontade, mas em geral o processo de inventário ou de probate ainda ocorre no Brasil, no país do bem, ou nos dois. Alguns bens podem seguir outro caminho, por exemplo quando há beneficiário indicado, e isso varia caso a caso.
Leia também
- Guia de sucessão internacional: testamento, trust e titularidade
- Testamento brasileiro vale para bens no exterior?
- Trust, testamento ou holding: quais as diferenças
Conclusão
Um único testamento e um testamento por país podem funcionar, e o que separa um caminho do outro é a coordenação. Antes de decidir, o que ajuda é saber onde cada bem está, como está titulado e quais documentos já existem.
Antes de escolher entre um documento e vários, liste os bens por país e reúna os testamentos, escrituras e indicações de beneficiário que você já tem. Com isso em mãos, fale com o time da Astride para uma análise que considere os dois países ao mesmo tempo e verifique se os documentos se complementam ou se contradizem.
Conteúdo educativo. Cada situação requer análise individual.
