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Sucessão da offshore: testamento na jurisdição, trust ou regras no estatuto

Sucessão da offshore: compare testamento, trust e regras do estatuto em custo, prazo para os herdeiros e efeitos fiscais no Brasil, com fontes oficiais.

Por Cristina Teixeira, CPA, TEP, CRC

Publicado em

Duas pessoas revisando papéis e uma pasta de documentos em uma mesa de escritório, com uma janela ao fundo

As ações de uma offshore podem seguir para os herdeiros por três caminhos: um testamento válido na jurisdição da empresa, um trust que já detém as ações ou regras previstas nos documentos societários. Cada um muda o custo, o tempo de espera dos herdeiros e o efeito fiscal no Brasil. Nenhum serve a todos os casos.

Atualizado em outubro de 2026.


Por que comparar os caminhos antes de escolher

Comparar antes evita escolher pelo que o advogado ou o agente ofereceu primeiro. Quem já entendeu que a offshore precisa de um plano sucessório costuma parar na pergunta seguinte: com qual instrumento?

O erro mais comum é tratar a escolha como questão só jurídica. Ela também decide quando o herdeiro consegue assinar pela empresa e como o imposto brasileiro enxerga a transmissão. O artigo sobre o que acontece com a offshore quando o titular morre explica o problema de partida. Este texto compara os instrumentos, e o guia de offshore, PIC e estruturas internacionais dá o quadro geral da estrutura.


Como funciona cada caminho

Em termos simples, a sucessão de uma offshore tem duas perguntas: de quem passam a ser as ações e quem passa a mandar na empresa. Os três instrumentos respondem a elas de formas diferentes.

Testamento válido na jurisdição da empresa

O testamento indica quem recebe as ações. No Brasil, o Código Civil (consulta em 9 de outubro de 2026) diz, no art. 1.857, que toda pessoa capaz pode dispor por testamento da totalidade dos seus bens ou de parte deles, e que a legítima dos herdeiros necessários não pode ser incluída no testamento. O art. 1.846 define a legítima como a metade dos bens da herança.

O que o código brasileiro não resolve é se o país da offshore reconhece o testamento e que etapas pede para registrá-lo. A resposta vem da lei da jurisdição da empresa, e por isso o testamento feito para o patrimônio no Brasil pode não bastar para as ações. Uma alternativa é fazer um testamento específico para a offshore, dentro da jurisdição, para não depender de reconhecimento posterior.

Trust que já detém as ações

No trust, o titular transfere as ações para um trustee, que as administra conforme o documento. Quando o titular morre, as ações já não estão em seu nome, e a regra de quem assume vem do próprio trust. É o caminho que costuma exigir mais desenho no começo.

A Lei 14.754/2023 (consulta em 9 de outubro de 2026) trata dos efeitos fiscais no Brasil. O art. 10 determina que os bens do trust no exterior permanecem sob a titularidade do instituidor depois da instituição e passam à do beneficiário na distribuição ou no falecimento do instituidor, o que ocorrer primeiro. O § 2º considera essa mudança de titularidade uma transmissão gratuita: doação, se em vida, ou transmissão causa mortis, se por falecimento.

O § 4º do mesmo artigo acrescenta que, se o trust detém uma controlada no exterior, ela é considerada detida diretamente pelo titular dos bens do trust. Se a offshore fica dentro de um trust, a tributação brasileira da controlada continua olhando para o titular.

Regras previstas no estatuto e nos documentos societários

Os documentos da empresa podem dizer o que acontece com as ações e com a administração se o acionista morrer. Em muitas jurisdições offshore eles se chamam memorando e estatuto (memorandum and articles of association). Podem prever, por exemplo, quem substitui o diretor ou como as ações são transferidas a herdeiros.

É o caminho mais barato de revisar, porque o documento já existe. O limite é que ele só vale até onde a lei da jurisdição e o banco o reconhecerem, e raramente decide sozinho quem herda. Isso continua dependendo do testamento ou da sucessão legal.


Qual é a diferença em custo, prazo e efeito fiscal?

A diferença está em quando o trabalho é feito e em quem precisa agir depois da morte. A tabela resume o desenho geral. Custos e prazos exatos dependem da jurisdição e de quem presta o serviço, e por isso ela não traz valores.

Critério Testamento na jurisdição Trust que detém as ações Regras no estatuto
Quem decide o destino das ações O titular, por testamento O documento do trust O titular, dentro do que o estatuto permite
Quando o trabalho pesa Depois da morte, com a validação do testamento Antes, na criação e na transferência das ações Antes, na revisão dos documentos
Tempo para os herdeiros Costuma depender de processo na jurisdição Tende a ser mais curto, pois as ações já estão no trust Depende de o banco e o agente aceitarem os documentos
Efeito fiscal no Brasil Transmissão causa mortis pelas regras brasileiras Regras do art. 10 da Lei 14.754/2023 Sem regra própria: segue a transmissão
Principal limite Reconhecimento fora do país Custo e desenho iniciais Não substitui o testamento

O trust paga o preço mais cedo e poupa trabalho dos herdeiros mais tarde, e o testamento faz o inverso. Para quem tem herdeiros em países diferentes, ou ativos em mais de uma jurisdição, essa troca costuma pesar.


E se a offshore ou o titular tiver ativos nos Estados Unidos?

Se houver ativos situados nos EUA, o imposto americano sobre herança entra na comparação. A página do IRS sobre estate tax de não residentes (consulta em 9 de outubro de 2026) diz que, se o valor dos ativos situados nos EUA na data da morte, somado à isenção específica de doação e às doações tributáveis ajustadas, passar do limite de US$ 60.000, o executor deve entregar o Form 706-NA. O limite não é corrigido pela inflação, e o prazo é de 9 meses após a morte, salvo prorrogação.

A página cita como exemplos de bens que podem entrar na conta o dinheiro, os valores mobiliários, os imóveis e as participações em negócios. Se as ações da offshore contam, e como, depende da natureza dos ativos e da forma de titularidade. Esse ponto pede análise de caso.

"Quem compara os três caminhos só pelo custo de montar costuma esquecer o custo de não ter montado. A conta certa inclui o tempo que a família passa sem acesso", observa Cristina Teixeira, CPA e TEP, cofundadora da Astride. (citação proposta, aguardando aprovação)


Dá para combinar os caminhos?

Dá, e é comum. Um trust pode deter as ações, o estatuto pode indicar quem assume a diretoria, e um testamento pode cobrir o que ficou fora do trust. O cuidado é evitar que um instrumento contradiga o outro.

Em um exemplo ilustrativo, o titular faz um testamento deixando as ações da offshore para dois filhos e, anos depois, transfere as ações a um trust que beneficia só um deles. O testamento perde o objeto, e a diferença entre os dois textos pode virar disputa. O artigo sobre trust, JTWROS ou testamento mostra como cada ferramenta transfere o patrimônio e onde elas se sobrepõem.

O Código Civil, no art. 1.858, define o testamento como ato personalíssimo, que pode ser mudado a qualquer tempo. Vale rever o conjunto sempre que a estrutura mudar.


O que verificar nos documentos da sua offshore

Antes de decidir, confira o que os documentos já dizem. A leitura mostra mais sobre o seu caso do que qualquer comparação em abstrato:

  1. Quem aparece como acionista no registro e quem aparece como diretor.
  2. Se há previsão para o falecimento do acionista ou do diretor.
  3. Quem é o agente registrado e como contatá-lo.
  4. Se existe testamento e qual país o reconhece.
  5. Se as ações estão em nome pessoal, em nome de um trust ou em titularidade conjunta.

O que muda de caso para caso

O resultado muda com a jurisdição da offshore, o domicílio do titular e dos herdeiros, a existência de herdeiros necessários, o tipo de ativo dentro da empresa e o que os documentos já dizem. Uma offshore com contas financeiras e herdeiros no Brasil pede uma conversa diferente da que tem imóvel americano e filhos em dois países.

Outro cuidado é a data. Regras de jurisdição e de tributação mudam, e o que está acima vale na data da consulta. Confirme antes de assinar qualquer documento.


Como a Astride atua

A Astride abre e mantém offshores em BVI e Bahamas, e a sucessão entra no desenho desde o início. Na Personal Investment Company (PIC) da Astride, a transmissão é prevista por titularidade conjunta com direito de sobrevivência (JTWROS, sigla em inglês), e o estatuto é revisado junto.

Para quem já tem a offshore, o trabalho começa pela leitura dos documentos e pela lista do que falta. Quando faz sentido, a Astride elabora o trust que passa a deter as ações e ajusta a estrutura existente. Nem todo caso pede trust, e a conversa inicial serve para dizer se o seu pede.


Perguntas frequentes

Posso fazer um testamento só para as ações da offshore?

Pode ser uma opção, e muitos titulares fazem. O testamento no Brasil cobre bens sem restrição de local, mas a validade dele sobre as ações depende da lei da jurisdição da empresa. Por isso o ponto deve ser confirmado com um profissional que conheça essa jurisdição.

O trust substitui o testamento?

Não substitui por completo. O trust cobre o que foi transferido a ele, e o testamento continua útil para o que ficou fora. Ter os dois pode fazer sentido, desde que um não contradiga o outro.

As regras do estatuto bastam para os herdeiros?

Raramente bastam sozinhas. O estatuto pode dizer quem assume a administração e como as ações são transferidas, mas quem herda segue dependendo do testamento ou da sucessão legal. O banco e o agente registrado também precisam aceitar os documentos.

O trust muda como o Brasil tributa a offshore?

A Lei 14.754/2023, em seu art. 10, trata os bens do trust como do instituidor até a distribuição ou o falecimento dele, e considera a controlada do trust como detida diretamente pelo titular. O efeito concreto depende dos fatos e deve ser calculado caso a caso.

Existe imposto americano sobre a herança de uma offshore?

Pode existir se houver ativos situados nos EUA. O IRS prevê o Form 706-NA acima de US$ 60.000 nesses ativos, somados a certas doações, no prazo de 9 meses.

Qual é o caminho mais barato?

Em geral, rever o estatuto custa menos que montar um trust, e o testamento fica no meio. Só que o menor custo de hoje pode virar a maior espera dos herdeiros. A conta deve incluir o dia em que a família precisar do acesso.

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Conclusão

Testamento na jurisdição, trust e regras no estatuto respondem às mesmas perguntas de formas diferentes. A escolha depende de quanto trabalho a família quer fazer agora, quanto aceita deixar para depois e de como o imposto brasileiro enxerga cada transmissão.

Antes de escolher, verifique o que os documentos da sua offshore dizem sobre o falecimento do titular. Com isso em mãos, fale com o time da Astride para uma análise que considere os dois países ao mesmo tempo.

Conteúdo educativo. Cada situação requer análise individual.

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